07 de junho de 2018 às 02:00

Ventos e paredões de gelo da Patagônia deixam lembranças marcantes

A noite prometia só belezas, um céu claro e transparente, mas o que trouxe foram horas inquietas, atormentadas por um frio patagônico. Mas, rolando na cama, não estranhei tais temperaturas: pois era na Patagônia mesmo que eu me encontrava.

A noite prometia só belezas, um céu claro e transparente, mas o que trouxe foram horas inquietas, atormentadas por um frio patagônico. Mas, rolando na cama, não estranhei tais temperaturas: pois era na Patagônia mesmo que eu me encontrava.

Estava trancado num hotel em El Calafate, na província de Santa Cruz, no sul da Argentina. Naquela manhã tinha chegado de Ushuaia (a capital da vizinha província de Terra do Fogo), cidade apelidada Fim do Mundo, por ser a última no sul do planeta antes da Antártida.

Tentava dormir. Mas os ossos tilintavam. Os dentes trincavam uns nos outros. A tremedeira fugia do controle. Respira, relaxa: uma hora as cobertas vão aprisionar contra a pele o calor, e isso passa.

Relembrava os dois dias anteriores. Em Ushuaia fiz um passeio de barco sob chuva pelo estreito de Beagle â?”nome inspirado no do navio britânico que, na segunda de suas viagens à região, no século 19, tinha a bordo o aprendiz de naturalista Charles Darwin.

Fazendo fronteira entre o Chile e a Argentina, serpenteando por ilhotas que compõem a Terra do Fogo, o canal liga os oceanos Pacífico e Atlântico. Mesmo na ventania úmida desci à terra para pisar a paisagem árida e avistar o farol Les Eclaireurs cercado de pássaros.

Devo ter interiorizado aquele vento cortante que parecia trazer dentro de mim duas noites depois. Ou fui contagiado pelo passeio seguinte, já em El Calafate: as portentosas geleiras, ali chamadas de glaciares, como a Perito Moreno â?”mantas de gelo empurradas montanha abaixo, terminando em paredões que podem superar os cem metros de altura à beira da água, onde se quebram e se desmancham.

As cobertas não davam conta do recado. Os ventos cortantes do canal de Beagle, os paredões gélidos de El Calafate, que não paravam de reaparecer nos meus sonhos, só poderiam produzir um frio assim.

Para piorar, o aquecimento do hotel devia ter algum problema. Após hesitar algumas horas, levantei em busca do aquecedor â?”daqueles antigos, dos países frios, uma serpentina metálica com uma torneira de controle.

Ativado ao máximo, talvez ajudasse a esquecer o frio e recordar produtos melhores daquele clima: seus pescados.

A Patagônia é muito conhecida por seu delicioso cordeiro. Mas é mais especial pelo que vem das águas gélidas: sua merluza negra tem carne alva que se desmancha, com sabor salino tão discreto quanto suas delicadas camadas que lembram porcelana. Mais acentuado é o sabor de outra preciosidade, a centolla, o caranguejo gigante de cujas pernas saem nacos tão fibrosos como macios, e quase adocicados.

Mas só o que me assaltava, noite adentro, eram os tremores. Demorou para que, em meio aos delírios, falasse a razão: os calafrios, num quarto superaquecido, só poderiam ter outro motivo. Febre. E febre alta, em paradoxal oposição à temperatura lá fora.

Hora de lembrar que eu também havia comido moluscos. Que bactérias insidiosas poderiam ter se alojado em mim naquele lugar tão ermo?

Suspeitando de que tudo aquilo era possivelmente uma infecção alimentar, consegui na recepção do hotel um termômetro (claro: 40 graus de febre), alguns comprimidos antitérmicos, e, ao alvorecer, dei o alarme aos meus companheiros de viagem.

Estava ali a trabalho, para uma edição especial da revista Expressions, cujo diretor, por sorte, estava apenas alguns quartos adiante. Sendo argentino (e mesmo falando portenho que, como se sabe, é língua quase estranha ao castelhano), ele encontrou um médico que me providenciou os antibióticos necessários.

Os ventos e os paredões de gelo da Patagônia, que atormentaram aquela noite inquieta, não poderiam mesmo ter produzido um frio assim. Mas deixaram lembranças tão marcantes quanto o sabor tocante da merluza negra austral. 

Fonte: FOLHA

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