12 de julho de 2018 às 02:00

Onde há uma bola tem uma criança que sonha brilhar no futebol mundo afora

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O lugar não poderia ser mais improvável. Já era meu segundo dia pelas margens do imenso lago Inle, em Mianmar, e minha capacidade de deslumbramento se revezava entre o bizarro remar dos barqueiros daquelas águas â?”um movimento hipnotizante que eles fazem com uma perna só entrelaçada numa tábua delgada e chata (enquanto a outra se equilibra firme na canoa)â?” e mais um Buda deslumbrante soterrado em outra ruína, tão recorrente que meu guia nem hesitava em parar para me mostrar.

O silêncio era quebrado por uma infrequente embarcação motorizada que rasgava um igarapé longe do nosso campo de visão e, por isso mesmo, aquele batuque que ouvia, ainda fraco já que estava distante, era ao mesmo tempo inesperado e familiar. 

O toque seco de um pé num couro teso vinha em intervalos quase regulares, quando não interrompido pelo que parecia ser um bate-boca amistoso entre crianças e foi preciso eu caminhar mais alguns minutos para entender que o que aqueles meninos estavam batendo ali era mesmo uma bola. De futebol, claro.

Já havia visto cenas parecidas pelo mundo: nas estradas empoeiradas de Bissau, na África Ocidental; num gramado de Ubud, Bali, que desfiava a mata ao seu redor; à sombra dos muros antigos numa praça quase deserta em Samarkand, Uzbequistão; num moderno clube esportivo na ilha japonesa de Okinawa. O que eu não esperava era ver crianças jogando uma pelada vestidas como monge, naquele imponente robe grená.

Sem querer estragar a espontaneidade do momento, aproximei-me devagar, incerto se interromperia alguma coisa caso tirasse da mochila uma máquina fotográfica. Mas os garotos pareciam não estar nem aí. O jogo mesmo acabou se dispersando, mas uma dupla parecia não querer largar da bola, e os meninos ficavam revezando toques até alguém acertá-la num ângulo menos certo e mandá-la para longe.

Consegui enfim fotografar a alegria deles. Riam como ri todo menino que esquece que tem uma obrigação â?”mesmo que seja só repetir um mantraâ?” diante daquele objeto redondo. Eu mesmo me divertia com aquilo e pensei em me apresentar, em inglês mesmo, como um viajante brasileiro, mas tive essa vontade abortada pelo monge superior que chegou chamando seus pupilos para o templo.

O que eu queria com esse contato era menos me exibir como habitante de um país que ainda é uma referência mundial no futebol do que ver que nome os meninos soltariam quando fizessem a conexão entre minha origem e o esporte que estavam praticando.

Já ouvi de tudo. “Ronaldo” e “Ronaldinho” â?”que é, sim, o Gaúchoâ?” nos mais variados sotaques. Alguém um pouco mais velho é capaz de lembrar de Romário. Ouvir “Pelé” já é mais difícil, mas até rola, bem como um ocasional “Tostão” e, com sorte, um “Rivelino”. 

Justamente por nossa língua soar estranha em boa parte do mundo, às vezes escuto um nome mais fácil de pronunciar em qualquer idioma, como Cafu. E comemoro como um gol quando, depois de algum esforço, alguém caprichar para falar o nome do meu ídolo: Roberto Carlos.

Recentemente â?”inevitávelâ?”, tenho ouvido o nome de Neymar e depois da passagem da nossa seleção pela Copa da Rússia essa presença só deve aumentar. Porque além do talento e do carisma, nossos jogadores têm, no imaginário dessas crianças que amam o futebol independentemente das suas nacionalidades, uma história que poderia ser a deles.

Em qualquer rua, de qualquer país, onde tem uma bola tem uma criança chegando junto. E tem também o sonho de brilhar com uma delas no pé pelos quatro cantos do planeta. E ser reconhecido não como um craque da seleção que vai sair vencedora neste domingo â?”certamente merecedora da taçaâ?”, mas como alguém que lá no fundo tem um pouquinho do Brasil quando entra em campo.

E quando finalmente vier o hexa, serão justamente esses sonhadores mirins os primeiros a estampar verde-amarelo. Mesmo que seja um robe sagrado.

Fonte: FOLHA

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