12 de julho de 2018 às 02:00

Não há futebol sem palavrão

Seria uma experiência científica de grande interesse artístico ou vice-versa: em condições controladas, medir a incidência de palavrões produzidos por um grupo de torcedores de futebol diante de partidas dramáticas em que seu time do coração enfrentasse r

Seria uma experiência científica de grande interesse artístico ou vice-versa: em condições controladas, medir a incidência de palavrões produzidos por um grupo de torcedores de futebol diante de partidas dramáticas em que seu time do coração enfrentasse repetidas situações de vida ou morte. Apenas para efeito ilustrativo: Brasil 1 x 2 Bélgica.

A melhor parte seria relacionar os tipos de palavras cabeludas, classificadas previamente numa escala de pilosidade, peso e grosseria, às diversas situações de alívio, euforia, medo, frustração e demência apresentadas pelo jogo. 

O palavrão que afaga, como se sabe, pode ser o mesmo que apedreja, mas nosso experimento estaria equipado para fazer medições acústicas sofisticadas a fim de diferenciar por volume, intensidade e timbre os diversos usos do mesmo vocábulo.

Afinal, ninguém ignora que cabe um mundo de dissonância semântica entre uma expressão (a convencional PQP, digamos) usada para glorificar o Renato Augusto, que marcou de cabeça e reacendeu as esperanças brasileiras, da mesma expressão usada instantes depois para espinafrar o mesmo Renato Augusto, que chutou para fora a chance do empate.

Em condições não controladas, ou mesmo inteiramente descontroladas, essa experiência se desenrolou em milhões de casas brasileiras nas últimas semanas, diante da incompreensão e muitas vezes da revolta, daquela parte dos torcedores que, saindo do armário apenas de quatro em quatro anos, não entende que futebol sem palavrão é como Piu-Piu sem Frajola e Buchecha sem Claudinho.

Mas será mesmo? E em caso afirmativo, por quê? A resposta à primeira pergunta é um rotundo e empírico sim. Já a segunda requer maior elaboração e um inevitável avanço por terreno ainda pouco explorado, o estudo das funções psíquicas e físico-químicas dos tabuísmos â?”nome bem comportado dos palavrõesâ?” no organismo de quem os profere.

O que se pode garantir é que palavrões têm poder. Experiências recentes constataram que, gritando grosserias inomináveis, as pessoas suportavam a dor de manter a mão mergulhada em água gelada por intervalos muito mais longos do que o grupo ao qual era permitido gritar apenas palavras inofensivas como "brócolis" ou "ursinho".

A tensão e a angústia geradas por uma partida de quartas de final de Copa do Mundo, potencializadas pelo conjunto de expectativas que torcedores de boa cepa passam quatro anos acumulando, podem ser mais insuportáveis do que aquele balde de água com gelo. 

Diante disso, é natural que os bons modos e outras regras de salão da convivência familiar saiam perdendo miseravelmente, como Fernandinho diante de Lukaku. O estudo do papel do palavrão nas casas brasileiras durante a Copa do Mundo teria o mérito de lidar de forma direta com o contrabando na fronteira entre as esferas privada e pública que está no cerne dos tabuísmos.

Como diz o desbocadíssimo poeta Glauco Mattoso na apresentação de seu "Dicionarinho do Palavrão & Correlatos" (Record), "é consenso entre os pesquisadores que o caráter chulo desta ou daquela palavra ou acepção prende-se aos tabus fisiológicos (especialmente sexuais) que envolvem o corpo humano no contexto social, ou seja, a relação entre o comportamento público e o privado". 

Em outras palavras, o que soa natural no banheiro ou na alcova é escandaloso na sala de visitas. E é desse escândalo que o palavrão tira seus poderes primais de válvula de escape, catarse e desrepressão, evitando doenças na esfera privada e crimes hediondos na esfera pública. PQP, Fernandinho!

Fonte: FOLHA

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